quinta-feira, 11 de agosto de 2011

marcha

Já tem tempo (eu acho) que parei de falar aqui dos livros que ando lendo, e também não devo voltar a fazer isso (a verdade é que eu tô lendo bem mais do que eu vez ou outra falo aqui). O que aconteceu foi que ontem o sono não veio e eu acabei dando conta das oitenta e poucas páginas que faltavam pra terminar A Insustentável Leveza do Ser, do Kundera, que eu ainda não tinha lido (alô, Triunfol, desse eu gostei! hehehe), e teve uma parte que eu vou transcrever aqui porque lembrei demais dessa modinha de marcha que anda arrebatando heteros, homos, vadias e mães de família. O personagem Franz estava na Tailândia com mais um bando de europeus intelectuais de esquerda como ele, "marchando" em direção à fronteira do Camboja, com o propósito de ajudar o povo de lá e quando eles chegam na fronteira não recebem resposta positiva para cruzá-la. Enfim, aí  entra a reflexão sobre o momento:

"A resposta da outra margem foi um silencio inacreditável. Um silêncio tão absoluto que todo mundo ficou angustiado. [...] Subitamente, Franz teve a impressão de que a Grande Marcha chegava ao fim. As fronteiras do silêncio se fechavam sobre a Europa, e o espaço onde acontecia a Grande Marcha era apenas um pequeno palco no centro do planeta. As multidões que se aglomeravam antigamente à beira do palco tinham virado a cabeça havia muito tempo, e a Grande Marcha prosseguia na solidão e sem espectadores. É, pensava Franz, a Grande Marcha continua, apesar da indiferença do mundo, mas está se tornando nervosa, febril, ontem com a ocupação americana no Vietnã, hoje contra a ocupação vietnamita no Camboja, ontem a favor de Israel, hoje, a favor dos palestinos, ontem a favor de Cuba, amanhã contra Cuba, e sempre contra a América, às vezes contra os massacres, a Europa desfila e para poder seguir o ritmo dos acontecimentos sem perder nenhum deles, seu passo se acelera cada vez mais, de tal maneira que a Grande Marcha se torna um desfile de pessoas apressadas, que correm desenfreadas, e o cenário vai se encolhendo cada vez mais, até que um dia será apenas um ponto sem dimensões."

No Brasil, já virou micareta há muito tempo.

2 comentários:

Navegante disse...

No Brasil, são tantas "Grandes Marchas" que não dá tempo de lado algum refletir. É tudo um conjunto de ações sem causa. Ou seja, vira tudo micareta mesmo :)

Leonardo disse...

Esse é um baita de um livro. Obra prima!