sexta-feira, 8 de abril de 2011

endurecimento cardíaco

Quando eu tinha 7 anos, minha mãe assumiu a direção de um hospital que estava para ser fechado. Era originalmente um sanatório antigo de crianças tuberculosas, e a fundação, dona do hospital, não via mais razão de ser em mantê-lo, uma vez que modificadas as formas de tratamento da doença. Em seus últimos dias o que o hospital recebia eram crianças abandonadas pelas famílias, com maus tratos, desnutrição e, vez ou outra, alguma "doença". E, em seu contrato de trabalho, minha mãe deveria morar numa casa junto ao hospital, por onde ficamos por 10 meses, até o encerramento das atividades.

Com 7 anos minha mãe não me "protegeu" daquela convivência, o que talvez os pais de hoje fariam. Eu tinha livre trânsito dentro do hospital e só estava proibida de ter contato com crianças com doenças infecto contagiosas. Eu passava o dia no hospital. Ajudava as fisioterapeutas a fazerem nebulização nas crianças do berçário. Brincava com as meninas. Levava meus brinquedos, misturava com os do hospital. Na enfermaria dos meninos tinha alguns com paralisia cerebral, completamente alheios, emitindo sons estranhos. Conheci a Ângela, que, com 1 ano de idade chegou ao hospital pesando 2 quilos e foi reanimada, por uma médica e uma fisioterapeuta, devido à uma parada cardíaca por desnutrição.

Aos 7 anos, considerada a idade da razão, vida e morte pra mim eram cotidianas. E, naqueles meses, eu aprendi que diante da dor é necessário a gente se manter forte e agir. Porque aquelas crianças nem recebiam a visita dos seus pais enquanto eu dormia com os meus todos os dias. Porque elas suportavam as agulhas de soro e eu, no máximo, pegava piolho no colégio.

É uma história que eu não gosto muito de especular. Ter vivido isso não me faz uma pessoa tão diferente das outras, mas eu sei que fez muita diferença pra mim. Eu talvez fosse bem diferente se não tivesse vivido aqueles 10 meses. E eu não sei o quanto isso justifica a minha postura aparentemente fria em relação a sentimentos, talvez nada. Mas, ultimamente, esse tipo de "definição" por algumas pessoas tem me assustado um pouco e me lembrar deste fato me ajuda às vezes a compreender a minha postura diante de certas situações. Sabe, se tem uma criança morrendo na sua frente, você não pode se dar ao luxo de sofrer naquele momento. Ela depende a sua ação e do seu sorriso pra saber que está viva. Eu dependo da ação e do sorriso, ainda que por dentro eu esteja morrendo.

Eu não sei mais do que estou falando. Mas tinha um rascunho disso aqui, escrito há muito tempo, e eu apaguei porque achei que não tivesse importância. Tive que escrever de novo. Talvez tenha importância. É só um palpite.

3 comentários:

C. disse...

eu acho isso um assunto bem delicado sabe, talvez pra uma longa conversa pessoalmente (vc sabe rss)
é aquela velha história de uma pessoa dizer que tá sofrendo por um problema x e o outro dizer que podia ser pior, ou trazer um exemplo de alguém e.. sempre podia ser pior né.
pra todo sofrimento, todo, vai ter outro pior e sabe, julgar sofrimento ou censurar por que "podia ser pior" é foda.
eu digo que é aquele negócio de dizer "mas olha o mendigo, vc podia estar naquela situação".
é importante lembrar e viver e conviver e participar e fazer alguma coisa pra diminuir o sofrimento daqueles que a gente vê que estão sofrendo, mas a gente tem que se permitir sofrer também, independentemente do sofrimento dos outros. o que eu quero dizer é que não concordo com balizar o seu sofrimento pelo do outro, talvez não seja essa a palavra mas não me vem outra...
e sabe que eu me culpo pra caramba por reclamar de barriga cheia, vc sabe disso e sabe a confusão que eu faço com esse negócio de "barriga cheia", e tenho um blog pra isso de reclamar pq na vida "lá fora" eu não reclamo e tento fazer e não reclamar, e...
e teve um dia que eu tava falando pra uma pessoa que a gente tem tudo que precisa e não devia reclamar, porque eu acho isso mesmo, a gente faz parte dessa parcelinha pequena que tem tudo e que não tem que reclamar de nada, e essa pessoa virou pra mim e disse: eu tenho tudo que eu preciso mas eu não tenho você. e eu fiquei sem saber o que dizer sabe, e que confusão eu faço com tudo isso maria.
e mesmo que vc diga que a gente não vai conversar eu queria sim conversar sobre isso com vc. pessoalmente. um dia. =)
um beijo..
dois

Alguém disse...

Também detesto esta mania das pessoas nivelarem por baixo e dizerem que poderia ser pior,claro que poderia ser pior,sempre pode ser pior,mas também, podería ser melhor e é por aí que a gente se vê.Por outro lado, às vezes a gente fica "ensimesmado" demais,fica ruminando dores que já nem fazem mais sentido,lute por dias melhores,busque dentro de você a resposta,terapia ajuda,amigos ajudam.Você merece ser feliz!!!!

Maria disse...

C., a questão não é comparar os meus problemas com outros maiores de outras pessoas, coisa que até eu evito fazer porque não acho que o fato de você ter uma vida melhor do que a dos outros te tira o direito à insatisfação. Não é isso. O que eu falo no texto, ou pretendo, pelo menos, é da minha postura diante do que eu sinto como sofrimento. Eu sou bem durona, o que não significa que... bem, quem quer enxergar a minha essência, enxerga fácil. E a conversa, bem, é só por enquanto.

Alguém, é isso aí que eu disse pra C.