Sempre que eu recebo esses teus arquivos de audio me dá uma certa vertigem. Hoje foi mais forte. Coisa de mulher insegura e a-pe-ga-da e que fica se questionando toda hora, e que já acorda com dor de cabeça de tanto questionamento e aí vem pra janela pra dar bom dia pra alguém e se depara com um arquivo de áudio na caixa do correio. Perdoa. Eu ainda estou chocada com o imposto de renda, e olha, eu nunca imaginei que imposto de renda pudesse ser tão ou mais devastador que uma TPM ou ciúmes ou ressaca. Ainda vou ficar uns três meses colocando a culpa no imposto de renda por toda praga que sair da minha boca.
Mas, voltando ao medo dos seus arquivos de áudio, eu fico aqui pensando que pode ser que meu subconsciente fique querendo me dizer que você é uma criatura má pronta pra destruir de repente meus muros de pedra e cal, mas aí você me desmonta com tanta doçura então jura, jura pra mim que você não finge e que você gosta de mim de verdade, porque, sabe, o imposto de renda tá me fazendo sentir a mais coitada das criaturas do universo e, numa dessas, eu abandono tudo, tudo mesmo, antes que possa pensar em alguém me abandonar antes, a não ser que alguém venha e me abrace dizendo olha, eu tô aqui e gosto de você, mesmo que não seja tão sincero.
E eu não estou aprontando. Não estou. Eu penso sim em aprontar, e pior, eu escrevo coisas pras pessoas lerem e acharem que eu estou aprontando mas a verdade é que eu tenho uma certa preguiça com coisas que vão me render apenas um friozinho na barriga, e talvez mais uma trepada, e com gente que, na boa, nem vale assim o meu esforço, porque, vou te contar, nessas horas eu me sinto tão diva, tão ocupada, que não me disponho a descer do meu pedestalzinho por coisa pouca. Agora, se é dos bons e velhos problemas relacionais e existenciais humanos que você tá falando, as culpas e os medos, esses que não exponho aqui de forma alguma, bem com esses aí o negócio é outro, mas deixa pra lá pois, por ora, já basta o imposto de renda.
Mas, o que eu preciso confessar mesmo é que o livro que eu fiquei de te mandar (e aí nesse ponto você não faz idéia do quanto eu amei a tua confissão), da mesma autora do livro que você vai me mandar, ele tá aqui, e eu cheguei e coloquei um Kant por cima para que, bem, para que eu esqueça mais ou menos dele, porque nem é pela história não, mas pelas reflexões dela, e, é horrível confessar, mas eu tô apegada a essa merda desse livro e aí eu pensei só em baixar ele na internet e marcar os trechos que eu sublinhei nas páginas pra guardar aqui, mas eu ando meio ocupada, e tem o imposto de renda, aff, tudo desculpa. Eu vou te mandar o livro mas não hoje porque não vou ter tempo de ir ao correio (outra mentira).
E eu acho que vou sim pra Bahia. Mas sobre isso, deixa eu pagar o imposto de renda antes, tá?
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Em tempo:
"Que novos amores, novos êxtases, novos impulsos a movem agora? Sei que você não gosta de escrever. Não peço longas cartas, apenas algumas palavras, o que você sente. Algum dia você já desejou estar de volta aqui em minha casa, em meu quarto, e você se arrepende por termos ficado tão arrebatadas? Algum dia você desejou reviver aquelas horas e de maneira diferente, com mais confiança? June, hesito em escrever tudo, como se sentisse novamente que você correria escada abaixo para fugir de mim, como você fez naquele dia, ou quase." (anaïs nin. henry e june)
É, o apego.
5 comentários:
"Como você sabe estou sempre mudando e sempre vivendo o esquecer velhos amores. Infelizmente não consigo evitar os carentes e existenciais, gente sofrida me atrai e eles me movem agora. Os impulsos... Como eu te disse, não chego a sofrer pois mudo tão rápido de uma dor pra outra que nem chego perceber o que me acometeu de fato.
Você sabe o quanto gosto de escrever, mas andei desequilibrada de novo e não foi o amor. Foi mesmo a escrita, tanta e tanta se acumulou que achei que se continuasse ia mesmo enlouquecer aqueles que amo e por isso comecei a falar. E falei e falei e falei. Falei horas. E falei com você e te contei sobre o livro. E fiquei com dor de garganta. Preciso rever os excessos.
Não me arrependo de nada. De nada. Nem do filme preto e branco nem da demora em te beijar. Me olhava com tanta doçura. Confiança teria estragado pois justamente a falta de gravidade com o silêncio da tarde e a insegurança e o preto e branco da pele e o seu cabelo. Coisa meio filme noir. Você nunca sabe o que vem depois. É bom assim não é?
E eu só corri pela escada (acima) meu amor porque a máquina estava longe e eu precisava tirar a foto da panqueca. Precisava.
Te amo."
Gostei muito da crônica.
ótima crônica mesmo maria
longa porém muito realista!
rs
Fita cassete?
sim! grava uma pra mim, com um rock bem vagabundo?
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