domingo, 27 de fevereiro de 2011

torpor

deste jeito eu vou pensar que você está me perseguindo. ou, na melhor hipótese, que há dois de você aqui dentro.

Dizem que sempre se aprende alguma coisa com qualquer pessoa, que é só deixar. Talvez por isto eu esteja agora dando uma chance à aristocracia desta cidade com nomes e sobrenomes, com a qual não me identifico.

Começamos pelos nomes, coincidências, lugares comuns. Depois os sobrenomes. Ainda assim, para mim ele é um desconhecido e eu desejo que permaneça como um desconhecido.

Me paga uma bebida, mantém uma conversa rasa e só depois me beija. Elogia meu perfume, e eu me recuso a dizer a ele qual é, mesmo sob insistência, por ser um perfume caro e eu achar que isto é muito deselegante. Penso que uma mulher não deve confessar seus perfumes, ainda que para homens como ele, com requinte e dinheiro estampados na cara e que, talvez, nem ache o perfume tão caro assim.

Vaidoso, parece temer um pouco informações que me levem a estimar sua idade. Pensa, certamente, que sou bem mais nova do que aparento e eu também não revelo - não vejo, absolutamente, nenhum problema nisto, mas prefiro não constrangê-lo ou quebrar o encanto.

Carinhoso, ele me olha muito com olhos claros que imagino verdes ou azuis, uma vez que, sabendo seu sobrenome, conheço sua genética familiar. Desliza suas mãos por meus braços, ombros e costas. Diz que gosta do meu cabelo. Ele tem um cheiro bom de homem limpo que me deixa excitada. Quero dizer para ele me me levar daquele lugar mas, neste momento, eu penso em você. Penso que posso usá-lo para compreender-lhe e quero isso. Mas tento fazer as coisas do meu jeito.

É bem tarde quando saímos do bar e ele, gentil, me acompanha até minha casa. Deixo meu carro e entro no carro dele, já sem os sapatos. Peço para ele dobrar a esquina, numa rua mais escura - não quero camas, nem lençóis, despedidas ou amanheceres.  É você e sua inconseqüência que preciso compreender e, para isto, vou usá-lo.

Me livro com facilidade das roupas e fico apenas com uma camisa. Ele também me deseja e lateja na minha mão, mas não diz uma palavra. Não me preocupo com juízos ou proteções pois não me interesso por ele. Quero as coisas da minha maneira, egoísticamente.

Aos poucos abandono minha postura de controle para deixá-lo percorrer meu corpo e ele me põe na boca. Faz bem. Eu penso em você e estremeço. Ele me tem com segurança, mas um tanto surpreso, como um menino. Para mim, não faz diferença. A esta hora já experimentei o ímpeto e a inconseqüência que me aproximam de você. É só você que me interessa e que cada vez mais compreendo.

Visto as minhas roupas e peço para que ele me deixe na porta de casa. Não há abraços nem despedidas ou trocas de telefone. Só sei seu nome por acaso. Coisas da aristocracia desta cidade com seus nomes e sobrenomes. E não sei se aprendi alguma coisa. Talvez quem tenha aprendido tenha sido ele, não vou saber. Sinto fome e devoro alguns pepinos em conserva. Deito na cama e é meu cheiro que sinto. Quando adormeço, é você que está aqui.

11 comentários:

Vampira Dea disse...

Neste texto tem frases que considero perfeitas!
Linda semana

Cassiana disse...

[dito como você gosta]
adoooooooooooooooooooro!!!!

Cassiana disse...

mas agora falando sério, esse texto ficou do caralho maria, acho que talvez, talvez eu traia aquele outro que eu tinha como preferido de todos os tempos... o dos hematomas... =\
ou não, não o que eu tô dizendo.
vai ficar em segundo.
mas gostei demais.
beijo dois

R. Paschoal disse...

Meu nome é Jane Jones, muito prazer.

jusandres disse...

Orguuuuuuulhoooooo.. hahahahaha
Ficou ótemo!! =P

Dita Panul disse...

Que inferno estas pessoas que invadem nossas vidas desde que acordamos até quando vamos dormir (de vez em quando ainda aparecem em sonhos pra completar...)!!!
Adorei seu método,mas desisti de compreender e quero simplesmente esquecer (se for possível).

Keila Costa disse...

É...tem gente que fica grudado na gente, parece que sempre esteve, indelével...mas vale tentar uma transposição, testar uma suposição qualquer que afirme ou desafirme...que enfim...faça-nos esbarrar nas nossas tortas convicções...Adorei!
Um beijo

Luciano disse...

Aqui escutando Clair de Lune, ainda sob o efeito do teu texto.
Só posso te agradecer pelas palavras, pelas imagens tão cheias de significados.
Bjão, Ma.

Surfista disse...

Bravo!

José Renato Cella disse...

Leio, releio e quero decorar para embalar meu sono e povoar meus sonhos com este texto e com tudo o mais que ele evoca. Beijos, Zé.

Maria disse...

cella, my master

=)