quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

o cisne

Acho que não tem ballet sobre o qual eu saiba mais do que O Lago dos Cisnes. Fácil, já assisti mais de 20 vezes em vídeo (Kirov, Bolshoi, e New York City Ballet), duas vezes ao vivo, completo, no Municipal do Rio (um com a Roberta Marques e outro com a Cláudia Mota), fora os inúmeros pedaços dançados por solistas convidados em diversos festivais de dança. Assim, as minhas expectativas para o filme "Cisne Negro" eram sem medida, mesmo sabendo que o roteiro não teria nada a ver com a história e que o que eu iria ver era a história de uma bailarina e não de um ballet.

Mas o que me intrigava era essa questão da bailarina, provavelmente a primeira da companhia, ter esse dilema pessoal causando reflexo na sua interpretação dos papéis de Odete e Odile - porque o Odile realmente é mais sedutora, mas não é tão arrebatadora e impossível assim para alguém que chega ao posto de primeira bailarina.*  E, uma pessoa com os problemas de Nina não iria diretamente de solista pra primeira bailarina - e nisto eu não evitei uma comparação entre o ballet e o cinema - o cinema clama por esta necessidade do novo, e tem recursos pra disfarçar as falhas, e o ballet nem tanto, depende muito do desempenho da primeira bailarina, de forma que dificilmente um produtor iria arriscar um orçamento colocando no papel principal uma garota com sérios problemas psicológicos.

E várias outras coisas eu também não gostei no filme. Achei a Nina boba, na verdade. Ingênua demais. Sinceramente, uma pessoa como ela está no ballet há pelo menos 18 anos (de acordo com meus cálculos da idade da personagem) e ninguém que faz ballet há 18 anos e já é solista numa companhia de dança é tão ingênuo assim. Coisas que estariam mais de acordo com uma adolescente que fosse estrear no papel de Clara, do Quebra Nozes. Mesmo assim, Natalie Portman trabalhou excepcionalmente no papel que deram a ela. E todos os recurso simbólicos utilizados também são fantásticos - a transmutação dela em cisne, os sangramentos etc. Sem contar que a moça tem a vantagem de um professor particular** que... meu Deus!

Bem, esta não é uma crítica sobre o filme. Esta é. E, apesar de um pouquinho de decepção pra mim, é um filme que merece ser visto, estatuetas e tudo mais.


Como fazem meus queridos Surfista Platinado e Navegante, lá no 365 rotações, uma pequena curiosidade: a musiquina que toca, acho que às sextas feiras, para encerrar o Bom Dia Brasil com as imagens da semana é da dança dos espanhóis, do terceiro ato do Lago dos Cisnes. Muita gente ouve aquilo há tempos e nem imagina.


* Primeira bailarina tem que dançar Giselle. E quem dança Giselle, dança qualquer outra coisa.
** Pra quem não sabe, a Natalie é casada com o Benjamin Millepied, um espetáculo a parte, que coreografou e atua no filme.

6 comentários:

Maria disse...

pra você que comentou por email:

tudo bem, a nina é só um personagem, um bom personagem, e isso é apenas um filme, um ótimo filme.

é que minha percepção do contexto vai além. e eu tenho as minhas exigências, você sabe.

=**

Cassiana disse...

você agora só fala comigo em público?

Maria disse...

hahaha, claro que não.

é que estava um poste triste, sem comentários.

e eu tentando amenizar minhas críticas...

você sabe!

Vulgo Dudu disse...

Vou te dizer, acho Cisne negro disparado o melhor dos 10 que concorrem a Melhor Filme. Por isso mesmo, acho que não vai ser premiado. Gostei muito. Gosto muito do Aronofsky. Os filmes dele me deixam aflito.

Muita gente tem dito que o roteiro fica longe do mundo do balé. Mas, afinal, acho que o filme é mais sobre um surto.

Ainda assim, bom ler a opinião de quem conhece dança!

Bjs!

minicontosperversos disse...

Uma vez eu assisti Quebra Nozes no Guaíra. Metade do primeiro ato. Acordei no meio do terceiro ou quarto ato, não lembro, o último, que seja, quando uma bailarinazinha figurante desmaiou no palco. Aquilo sim foi emocionante.

Dita Panul disse...

Bom,não entendo nada de ballet,mas curti a trama psicológica, o lance de perfeccionismo,de entregar-se à emoção,de sabotar si mesma, muito interessante, eu gostei e fiquei dias pensando no assunto.