terça-feira, 24 de maio de 2011

aniversário

Era para mim a festa de aniversário, depois de ter passado dois anos morando na França e quem estava ali não eram exatamente os meus amigos, mas um monte de gente que eu só conhecia por causa dele. Era uma gentileza, um carinho ímpar que eu jamais esqueceria, um presente regado a bons vinhos e boa comida. Eram pessoas que gostavam de mim, e de quem eu também gostava, mas que eu dispensaria sem pensar duas vezes da minha comemoração de aniversário. Ele sabia disso. me conhecia o suficiente para saber. Mas a alegria era tanta por eu estar de volta que talvez nem tenha pensado na possibilidade de eu não gostar, ou na possibilidade de até mesmo ele não gostar.

Fazia muito frio naquela noite e uma chuva quase imperceptível me trazia de volta ao lar e a todas as suas estações indefinidas. A conversa era alegre e todos com uma curiosidade rasa a respeito da minha estada em outro país. Tão rasa que a cada três palavras de minha resposta alguém me cortava para contar suas próprias percepções. Eu estava louca para sair dali, o que seria uma desfeita sem tamanho. Felizmente, todas aquelas pessoas foram embora antes que a madrugada chegasse, levando seus compromissos de dia seguinte e justificativas das mais variadas, e assim ficamos eu, ele, o melhor vinho, o silêncio da chuva, algumas coisas nossas e uma madrugada inteira.

Quando acordei estava nua e era quase manhã, ainda escuro, só o silêncio da chuva, um pouco mais intensa. Ao meu lado, ele dormia e eu tive a surpresa infantil de perceber que ele dormia respirando calmamente e aquele corpo nem parecia um corpo de um homem da idade dele e naquela hora eu me assustei e fiz contas e me virei de um lado para o outro então ele me puxou para junto de si e disse "sossega". Eu fechei os olhos, quase obediente, e tentei aproveitar todo aquele calor porque era bom, porque eu me sentia confortável e querida. Agora não adiantava muito racionalizar sobre o que acontecera naquela madrugada, afinal, não faria diferença. Abri os olhos e continuei ali, quieta, aquecida, imóvel e tentei experimentar a possibilidade irrisória de permanecer. Mas a idéia me enlouquecia.

Então pensei "como é mais fácil para aqueles que conseguem chorar".

3 comentários:

Rafael Paschoal disse...

Hmmmm...
E se eu dissesse que, mudando algumas vírgulas e aspas, esse conto cabe certinho em um determinado aniversário meu?

Pois é, já passou...

;)

Fernand's disse...

nossa...
encantada com tua descrição. quase vi a última cena. que teu coração tenha, de fato, sossegado nesse momento que virou eterno pra ti.



bjsmeus

Maria disse...

Rafa, digno assim, de contar?

Fernand's, esse é 100% ficção. De verdade ;)