domingo, 30 de janeiro de 2011

para gabriel garcia marquez*

No dia em que Isabel arriscou um cafuné a 5cm da orelha esquerda de Pedro, e Pedro, num ato inocente e impensado, virou-se e a beijou com desespero, naquele dia, a Terra girou ao contrário. Isabel e Pedro não perceberam o evento porque estiveram ocupados com outras coisas durante a noite toda, que, alías, foi mais longa do que o que costuma ser, uma vez que o evento astronômico da inversão do giro da Terra prolongou a noite por umas três, quatro horas.

O ocorrido causou problemas sérios para alguns setores, como o de transportes, principalmente aéreo, de comunicação, 103 e todos os outros que neste mundo moderno funcionam com coisas programadas. Foi bastante difícil para os motoristas de ônibus e para as equipes dos hospitais que trabalham de madrugada. Foi praticamente um caos.

Naquele dia, Isabel saiu ainda de madrugada da casa de Pedro por causa das urgências da vida e encontrou a rua molhada pela chuva, o Rio de Janeiro despertando e as pessoas atordoadas com o acontecido. E enquanto tomava um café na padaria da esquina, ela não tinha certeza se mais bizarros eram os relatos das pessoas que viveram aquela noite ou o que tinha vivido em sua noite particular. De tudo, não entendia quase nada. Tentou por alguns minutos prestar atenção nas explicações do jornaleiro, mas o olhar se perdia nas cores das revistas lado a lado arrumadas na banca. Se despediu agradecendo com um sorriso, foi para a casa correndo, arrumou suas malas e pegou um taxi para o aeroporto. 

E enquanto todos os cientistas do mundo pensavam numa explicação a dar, no estudo do evento, diagnósticos e previsões, Isabel pôs seus fones de ouvido e se desconectou do mundo. Porque, às vezes, fugir um pouco da realidade, ainda que no momento em que ela parece mais absurda e instigante , faz falta.





* porque só ele poderia fazer a terra girar ao contrário. e porque, talvez, sem ele a gente não teria, um dia, tomado uma cerveja de tarde, mar, outubro, rio de janeiro e tantas histórias. eu adoro outubro, eu já te contei isso? eu carrego uma certeza aqui dentro de que em outubro sempre acontecem coisas boas.
** passei a manhã toda pensando nessa idéia do mundo girar ao contrário porque, você sabe, eu tô tentando, eu tô tentando de verdade, parar de pensar em outras coisas, e aí eu preciso fugir um pouco da realidade, porque ela anda mais absurda do que eu posso suportar.

5 comentários:

Luciano disse...

Linda e apaixonante narrativa, Ma.
Deu vontade de fazer o mundo mudar de rotação.
Abraço.

Marcelo Mayer disse...

bela analogia para um dos sentimentos mais egoístas do homem e da mulher

●๋• тнαi иαรciмєитσ disse...

Quisera eu que o mundo girasse ao contrário mais vezes...


parabéns pelo texto!

André Debevc disse...

Maria tem um jeito simples e leve de diexar a gente letárgico, teletransportando a gente para seus textos.

Sinto cheiro, vejo cor, cortes secos como um filme bem feito. Textos sensacionais são assim. Não são linhas. São vivências. Mesmo num dia mais longo em que tudo girou ao contrário.

ONG ALERTA disse...

Poderia acontecer para reorganizar tudo...
Beijo Lisette.